A INVICTUS foi até Panmunjon, a zona de guerra com mais de meio século de tensão e intrigas entre dois povos em um: Coreia.

Pelo que mesmo nós estamos brigando?

Viajar para o mistério é quebrar a cara na fila de embarque. À espera do trem para Dandong, fronteira da China com a Coreia do Norte, coreanos do norte seguram seus passaportes de capa vermelha em meio às bagagens que trazem do mundo exterior para seu país entrincheirado. Mas os cidadãos do norte podem sair da sua Coreia? Os abençoados pelo regime sim, e essa é a primeira descoberta da INVICTUS na terra da Família Kim.

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A locomotiva aporta à estação de Sinuiju, na Coreia do Norte, suave, a menos de 10 quilômetros por hora. Soldados magros em fardamento marrom se enfileiram em uma linha, à distância de 20 metros de cada um. Todos expressam feições duras e olhares estáticos à passagem dos vagões. Do prédio da imigração saem os oficiais para a revista de bagagens e verificação de vistos e passaportes. Uma olhada rápida em aparelhos eletrônicos e leve simpatia.

Após a apreensão causada pelo imaginário fértil do mundo ocidental em relação ao militarismo norte-coreano, o maquinista parte para rasgar o País sobre os trilhos que conduzem 250 quilômetros até a capital, Pyongyang. Pelo caminho, a República Popular Democrática da Coreia – Coreia do Norte não é o nome real, se abre como território de uma nação 100% rural, com pequenos vilarejos de construções iguais, estradas de terra e campos arados pelo gado.

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A separação e a guerra entre as duas Coreias

Para compreender essa história de duas Coreias é necessário voltar em 1910, quando a península coreana pertencia ao Império Japonês. Com as duas grandes guerras mundiais do Século 20, a geopolítica então sofreu alterações. Após a explosão das  bombas atômicas no final da Segunda Guerra Mundial, o Japão, enfraquecido, perdeu o hegemonia territorial.

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Dado o início da Guerra Fria (comunistas x capitalistas), a península foi dividida ao norte à ocupação e influência dos Soviéticos, e ao sul aos Estados Unidos. Após mediações que incluíram as Nações Unidas e o insucesso na proposta de unificação das Coreias sob um único poder, o conflito se iniciou.

Em meados de 50, um guerrilheiro nascido na antiga Coreia Japonesa, decidiu conquistar os territórios do sul marchando com seu Exército para além do Paralelo 38, a linha imaginária que até hoje divide a área. Seu nome: Kim Il-sung, o fundador da Coreia do Norte e aniversariante da semana em que a INVICTUS esteve no olho do furacão.

Alto! Ainda estamos em guerra

Panmunjon é a “cidade abandonada” ao sul da Coreia do Norte e ao norte da Coreia do Sul. Na verdade, ela demarca o local onde fora assinado o armistício de 1953, que suspendeu a guerra (mas não a findou), e também a chamada Zona Desmilitarizada entre as duas nações. Importante salientar, nesse leque de contraditórios: talvez a Zona Desmilitarizada mais militarizada do mundo.

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Literalmente “terra de ninguém”, a extensão da área rasga a península em 250 quilômetros com largura de 4km. O clima é sério e hostil. Soldados cuidam de toda a segurança como se bombas fossem explodir a qualquer momento. Os turistas são levados para comprar souvenires caros que incluem cartazes de propaganda nacionalista, camisetas, jaquetas e artesanatos locais. Depois disso um soldado marcha esticando as pernas nas alturas para abrir o portão de acesso aos centímetros que separam as nações inimigas.

O caminho por dentro do complexo se apresenta com recrutas trabalhando pesado com pás e enxadas no terreno. Rolos de arame farpado enferrujado coroam grandes muralhas de pedra, à direita tremula a bandeira norte-coreana; um pouco mais à frente, no horizonte, é possível ver a bandeira do sul soprada pelo vento. Depois de cruzar um bosque bem arborizado, chega-se ao Pavilhão de Panmun, o último casarão da Coreia do Norte com vista para as casinhas azuis que delimitam os dois territórios.

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Dali é possível respirar o ar bélico que exalado por 65 anos de guerra. A visita é rápida e sem muitas atrações, a não ser a excitação de vivenciar a mais famosa tensão mundial na carne. É, de fato, histórico estar frente a frente com soldados estáticos de ambos os lados da linha imaginária que mantém a animosidade de uma única nação separada em duas. Uma terra de semelhantes que se xingam numa mesma língua e que comem as mesmas comidas típicas; de pessoas que viram seus parentes evaporarem como quem perde a mercadoria na alfândega do aeroporto, coreanos apartados por sistemas e ânsias de poder diferentes e só isso. A guerra, no fim das contas, nasce e morre banal.

*Marcos Holtz é escritor, jornalista e registra suas viagens no @mochilacronica.

Fique atento, na próxima reportagem da série você vai conferir mais sobre o rígido sistema de governo e da relação do regime com a população.  

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